Um bate papo sobre moda consciente e o Fashion Revolution com uma das embaixadoras do movimento em SC, Bruna Borges

25/04/2018

Abril é o mês de aniversário do Fashion Revolution e fazem 5 anos desde o desastre em Bangladesh que deu origem ao movimento. Para ampliar a conscientização e a causa do movimento, todo ano acontece no mundo todo a Semana Fashion Revolution, com palestras, workshops e atividades abertas à comunidade para que mais pessoas possam ser conscientizadas e mudar seus hábitos e passem a questionar mais as marcas.

 

Aqui em Santa Catarina algumas cidades como Florianópolis, Blumenau e Balneário Camboriú terão a semana acontecendo e logo que descobri entrei em contato com a aluna de Design de Moda da Univali de Balneário Camboriú, Bruna Borges, que é embaixadora do Fashion Revolution na universidade e a chamei pra essa entrevista, para que possamos entender melhor o movimento, o evento deste ano e dar dicas pra quem quer começar a consumir de forma mais consciente. Enjoy!

 

O que é o Fashion Revolution e qual a importância do movimento em nosso país?

O Fashion Revolution é um movimento global que passou a ser debatido depois que o Rana Plaza (edifício em Bangladesh) caiu em 2013, deixando 1.133 mortos e 2.500 feridos. Edíficio que contava com  diversas facções para grandes marcas. Com a tragédia, a discussão sobre o trabalho escravo e todas as questões que envolvem a moda, como: de onde vem a minha roupa, por que mãos passaram a minha roupa, qual o processo produtivo e como eu sei de onde vem a minha roupa vieram à tona. Usamos muitas roupas (e vários outros produtos também) e não temos uma clara ciência de onde vem, e foi assim que começou o movimento. Em 24 de abril de 2014 iniciou-se o Fashion Revolution Day, com uma movimentação principalmente online, começando em Londres, com várias pessoas influentes e do movimento usando camisetas do lado avesso perguntando para a empresa da etiqueta: "quem faz minhas roupas?". Foi uma ação bem legal e que deu um boom para o movimento, já que todo mundo colocava a foto da sua camiseta (desde Gucci, Chanel à Hering) e perguntavam para a marca quem fez minhas roupas, e aí o debate em torno de até quando a indústria da moda vai ser tão nociva ao meio ambiente quanto para o social,  o movimento começou a atuar em diversas cidades espalhadas pelo mundo.

Sobre o FR no país: em São Paulo temos a Fernanda Simon que é a coordenadora do Fashion Revolution Brasil. O movimento se espalhou pelo país em universidades que tenham o curso de moda para fomentar a ideia do consumo consciente aos futuros designers e estilistas e também nas cidades para provocar as pessoas a entenderem um pouco mais sobre o que é o consumo consciente e no que o consumo afeta às outras pessoas. O movimento é muito importante para o país pois vivemos em uma época de instabilidade, crise e de recessão, onde precisamos entender que todo esse movimento está acontecendo por escolhas erradas nossas do passado, principalmente no consumo. Se hoje temos esse boom do consumo consciente e as questões de sustentabilidade em alta é porque chegamos em um patamar que estamos esgotados: emocionalmente, socialmente, politicamente, economicamente. Daqui pra frente temos que começar a pensar um pouco mais nas nossas atitudes como cidadãos e a moda é uma das principais fontes de consumo do ser humano. Através dela a gente se veste, se expressa e é através dela que a gente consegue ver outros movimentos surgindo também, como a alimentação saudável, sabermos mais sobre o que estamos comendo, por exemplo, e isso é um ciclo. Quando falamos em consumo consciente falamos em consumo de várias coisas, e fomentar o questionamento de porque estamos comprando e usando cada coisa é muito importante para o país porque são atitudes que levam à mudança de velhos hábitos para novos mais saudáveis e conscientes.

 

Eu e a Bruna numa foto rápida antes de começar o Bazar do blog!

 

Qual sua história com a moda?

 

Minha avó era costureira e desde pequena eu gostava fazer roupas para as bonecas e ficar brincando com isso, mas meus desenhos eram sempre de caminhões, não tinha muito tino para o desenho em si. Depois de grande fui fazer um outro curso em outra cidade e não me adaptei, voltei para a casa dos meus pais. Aí começou aquela pergunta de "o que você vai fazer?". Eu sempre tive envolvimento com a moda, sempre era a amiga que ia com as outras no shopping ajudar nas compras, ajudar em que roupas usar, sempre foi um gosto bem claro mas nunca tinha pensado em fazer uma faculdade relacionada à moda. Quando regressei para Penha (minha cidade) e me inscrevi no processo seletivo da universidade pelo histórico escolar para o curso de Design de Moda e passei. Esse é meu último ano e a linha que atuo hoje é de pesquisa de tendências e é o que faço como estágio e bolsa além de ser embaixadora do Fashion Revolution na Univali.

 

Qual o seu trabalho como embaixadora do movimento na universidade?

 

Eu já acompanhava nas redes sociais o trabalho do Fashion Revolution e lá em 2016 estavam convocando embaixadores para universidade. Contactei por e-mail perguntando se já tinham parceria com a minha universidade, a Univali, e não havia ainda. Me enviaram o edital com todos os pré requisitos e a documentação necessária para ser embaixadora, enviei meu formulário e fui aprovada. O trabalho como embaixadora começou no início em 2017. O papel do embaixador é criar um evento dentro da universidade que fomente o Fashion Revolution. No ano passado foi a nossa primeira edição. Fizemos uma roda de conversa apresentando o que é o movimento, falamos sobre o consumo consciente e trouxemos personalidades da indústria da moda e uma professora mediando. nos outros dias apresentamos curta metragens como o The True Cost e tivemos como carro chefe do evento, a Feira de Trocas, que teve uma ótima repercussão. O pessoal foi bem receptivo, para nossa surpresa, já que na região as pessoas são mais fechadas para esse tipo de movimento sustentável. Já até repetimos a feira no final do ano em outro evento!

A semana do Fashion Revolution acontece sempre na semana de 24 de abril (que ocorreu a tragédia do Rana Plaza) para que possamos sempre nos lembrar dos reais custos da moda. Esse ano a semana vai do dia 23 ao dia 30 de abril com outros eventos e ao redor do mundo.

 

O que podemos esperar dessa edição e quais as novidades?

 

Esse ano temos a parceria com a comissão de direito da moda da OAB de Balneário Camboriú. São pessoas que discutem muito a moda e todas as vertentes. Dentro do direito abordamos as questões trabalhistas, ambientais, tributárias que são ligadas à moda. Teremos a palestra de Fashion Law com a Frederica Richer, que é a presidente da comissão. Logo após a palestra teremos uma mesa redonda falando sobre ética e transparência na moda com duas advogadas, uma da área trabalhista e uma da área tributária para falar dessas questões e seu envolvimento com a moda.

Na parte da manhã teremos atividades mais dinâmicas sobre a indústria, como o desperdício de água para a fabricação de uma calça jeans por exemplo, e formaremos grupos para pegarem uma problemática e apresentarem soluções, discutirmos o que podemos mudar na indústria. Na quarta dia 25 teremos uma roda de conversa com a Ágatha Limas que é representante da cidade de Balneário Camboriú do Fashion Revolution, junto com a Jana Souza que é parceira dela no movimento e a marca Ohana de Balneário também, que trabalha com bolsas sustentáveis. Juntos vamos debater sobre autoconhecimento e veganismo. Estamos trabalhando não só com o consumo mas com o autoconhecimento também. À noite teremos a abertura da feira de troca e ela segue até o último dia. Teremos alguns workshops de stencil (técnica com tinta e spray para customização de roupas), customização em jeans e a oficina de macramê com viés em malha. Todas as atrações são abertas ao público e não requerem conhecimento ou noções de costura para participar!

 

Confira a programação completa do evento nesse post.

 

 

 

Como você vê o cenário da moda no futuro com relação aos brechós?

 

A questão dos brechós em outros países e na Europa é muito difundida, e aqui no Brasil ainda há uma resistência, principalmente na nossa região (litoral do Sul do país). Temos que tirar esse viés de que brechó é coisa de vó e que cheira naftalina e tentar colocar o conceito de que no brechó é um lugar com peças que querem uma vida útil mais longa, e que possamos dar essa maior vida útil à elas. A gente que frequenta brechó sabe que tem coisas antigas e às vezes até com cheiro de naftalina mas nada que uma boa lavagem não resolva (risos), mas também tem muita peça nova que as pessoas não querem simplesmente se desfazer e levam para os brechós para poderem revender. O brechó é um movimento em expansão e vai crescer muito mais na nossa região, é a tendência. O apego ao passado é outra relação interessante que podemos encontrar nos brechós, como uma jaqueta igual à que a nossas mães usavam antigamente, trazendo memória afetiva. Essa é uma relação que os brechós tem que trabalhar com o consumidor e tem muita propensão à expansão.

 

Quais dicas de consumo consciente você daria para quem compra muito e em fast fashions na maioria das vezes mas quer ajuda para mudar seus hábitos?

 

A primeira coisa que a gente tem que fazer antes de comprar é analisar o nosso guarda roupas. O que ainda usamos, o que não usamos mais, o meu estilo, o que eu uso todos os dias, o que eu uso raramente, se eu trabalho fora, se eu não trabalho, observando sempre o que eu mais uso e o que eu não uso mais. O que eu não uso mais eu vou tirar pra doar, pra vender num brechó, levar na feira de trocas. A questão dos fast fashions tem que ser pensada pela qualidade. Tem lojas nesse segmento que tem uma boa qualidade mas tem muitas que não, então se você compra uma peça pra usar mais de 5 vezes de uma fast fashion qualquer ela pode virar um trapo. Temos que pensar mais na qualidade das peças que estamos comprando, por mais que seja uma coisa mais cara, porque às vezes o barato sai caro. Escolher muito bem as fast fashions que você vai comprar. Seria errado falar não compre mais em fast fashions ou que elas vão acabar porque isso nunca vai acontecer, mas elas vão mudar um pouco o estilo delas entendendo a importância de um consumo consciente e a gente também.

Observe o seu estilo, o que você pode combinar com o que já tem, pesquise sobre o armário cápsula, onde você pode com poucas peças montar muitos looks de uma forma fácil, é só usar a criatividade. Procure também dar uma vida a mais para suas roupas: se você tem uma peça de roupa que está parada no seu armário que pode ser útil para outra pessoa.

Se pergunte sempre "eu preciso disso?" quando for comprar e tenha clareza sobre o consumo consciente, sustentabilidade e tudo que vem por trás da indústria. Saber que não é apenas uma blusinha, uma simples calça, vem muito mais por trás: quem fez aquilo, de onde veio, pra onde vai e pensar um pouquinho mais em todas essas questões.

 

Agradeço imensamente o interesse e a disponibilidade da Bruna para fazer a entrevista e espero que tenham gostado! Logo logo teremos a volta do canal do blog no Youtube com um vídeo especial sobre moda consciente com ela. Fiquem ligados!

 

Pra quem gostou do movimento e quiser participar da Semana, procure nesse post que explica mais sobre o evento e tem o link para você achar a mais próxima da sua cidade e poder participar também. Vamos revolucionar a moda, todos juntos!

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